quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Verdadeira história de John Belmonte - contada pelo o próprio!
...
   A história acabará por trazer-me glória e tornar-me lenda! Foi assim que me apresentei perante ela. Cabelos loiros, compridos e feitos de matéria natural. Olhos verdes. Verde fundo de mar de coral. O perfume percorreu todo o espaço entre o meu corpo e o dela até que fiquei sem forças para lhe tocar. Provocou-me e disse-me que nunca poderia tocar-lhe porque não sabia quem ela era. Claro que sabia. Observei-a várias vezes enquanto chorava, deitada na areia suja da praia que tanto amava. Porquê? Pergunto-me eu. Inventar uma história, quando não sabemos os factos, pode tornar-se terrivelmente inquietante.

    Sei que ainda vais procurar por mim, mas nessa altura estarei longe, mas tão longe que nem eu próprio sei onde estou. 
   Porque foste dizer ao mundo que te amava? Não, não te amo. Mas também não sei que tipo de sentimento é este que me leva a querer-te tanto.
     Bem sabes que gosto daquele lugar onde me sento a beber e a olhar para ti enquanto vagueias semi nua por entre paredes pintadas de vermelho. Espera lá... tu consegues ver-me??? Consegues? Não acredito...

Pior. Nunca imaginei que podias ser assim tão cruel. Fazes de propósito. Provocas-me porque sabes que sou de papel. Não. Sou de cartão. Que arde lentamente com uma incrível sede de ti. Naquele dia, escrevias e rasgavas em pedaços o papel e as palavras que ele continha. Mas o que escrevias tu? Um nota de memória? Uma qualquer lista de desejos? Ahhh!!! Não quero saber. Espera. Lembro-me que me tinhas dito que gostavas de poesia e que os teus sentimentos eram versos que não rimavam. Queres um poema? Eu escrevo. Mas prometes que não mostras a ninguém... fica como que um segredo nosso. Eu sei que não contas. Até porque não te vou entregar uma única palavra escrita em papel, simplesmente vou dizer ao teu ouvido. E assim começa...


Palavras surdas que vejo,
que desejo,
ouvir e sentir e nunca pedir.
Por entre negação do óbvio
fecho os teus olhos e olho
no mais profundo sonho.
Vou voar para junto do silêncio
que cobre a noite tardia
numa tentativa desesperada
de ouvir a madrugada,
que me acorda e assola
como uma vadia.
Resisto ao capricho
do teu olhar,
quando,
mas nem sempre,
dou por mim a fraquejar
e por instantes, desisto!
Não me vences,
não penses,
porque o amor não morre,
fica no dedos e não escorre.
Se esperares por mim,
sabes onde esperar,
por detrás do som do vento,
que carrega o sentimento,
e também a mim...
...
Gostaste? Escrevi especialmente para ti. Já sabias. Para recordar tudo o que vivemos.
Porque escreveste aquele livro? Sabes bem que aquela não é a minha história. A história de John Belmonte...
Eu sou muito mais do que aquilo. Sou a tua verdadeira história. A história que não contaste. A história que falhaste. Recordas-te do dia em que nos conhecemos? A musica que ouvíamos, La Coccinelle - Without Face & Without Number, fazia antever uma noite única. Palavras em francês, sussurradas ao nosso ouvido fez-te lembrar do filme Orquídea Selvagem, confesso, ainda hoje não sei porquê! Talvez porque era assim que te sentias naquele dia, selvagem. Eu não o consegui sentir. Depois de um Cardhu com gelo, foste dançar sozinha. Pediste-me que somente te observasse. Observei-te enquanto o bar ficava cada vez mais vazio. O dia da semana assim o exigia. Por momentos, recebi e cumprimentei o Jack. O tempo lá fora vinha anunciado na gabardine dele. O Jack pediu um copo de Vodka e sentou-se ao meu lado. Quando olhei para trás já não estavas. Os bancos estavam vazios. Corri até à porta e vi-te dentro do táxi. Acenaste-me com a mão e disseste-me adeus enquanto atiravas um papel pela janela. Por pouco a chuva que caia não o levou para a sarjeta. " Quando olhares para uma mulher a dançar, nem que o mundo esteja a acabar, não te distraias, podes perder o fim do espectáculo." Fiquei sem palavras. Durante varias noites esperei que entrasses por aquele bar adentro. Em vão! Mas eu sabia que estavas por perto, sentia a tua presença. Não me perguntes como.


Dois meses depois deixaste uma morada entregue no balcão. Corri para lá. Toquei á campainha e tu perguntaste quem era. Eu respondi. John Belmonte. Não conheço, respondeste tu. Eu sei, distrai-me enquanto dançavas e tu castigaste-me! Deste uma gargalhada e fizeste silêncio...Estás aí, perguntei eu?

-Deixa-me o teu numero no correio!

-Assim fiz...


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